Saúde de Jovens – A adolescência e as vicissitudes do século XXI

A adolescência, no contexto evolutivo humano, é a idade em que se concretiza o florescimento pleno do desenvolvimento corporal humano e, junto com ele, a emergência da razão na forma mais pura, da consciência de si e de forma imperativa, as paixões e o amor. Paradoxalmente, a realidade manifesta-se no seu resplendor junto com as forças que disciplinam os impulsos para alcança-la.

Em momento de plena revelação da vida, ela tem que ser contida, porque a paixão desenfreada significa a morte e a adolescência traz consigo a dolorosa consciência da morte numa erupção sexual desenfreada. Eis a dupla face da evolução, do desafio inexcedível do auto-conhecimento e da abertura do universo às conquistas humanas.

É pela educação que o sujeito adolescente encontra o seu caminho, de forma a poder trilhá-lo com os próprios recursos. A palavra educação é empregada, aqui, no sentido de conduzir, com desvelo, solicitude e atenção com vistas aos valores humanos, para que, ao final, seja com seres humanos e como seres humanos que encontraremos os nossos semelhantes.

Quando o bebê deixa o útero materno para a vida, ele perde os limites do corpo materno e ganha a vastidão do universo. Ele só sobrevive com o amor e o carinho de seus cuidadores. Ele só conhece o prazer e o desprazer que ele próprio se dá, porque, para o bebê, a mãe e o mundo são uma extensão dele mesmo. Ele vive o imaginário e constrói da fantasia a própria vida. Se não fosse assim, ele seria só desamparo.

A grandeza de sua energia amorosa tem a força e a intensidade do amor de seus pais. Mas o princípio da realidade impõe a evolução no sentido do desvelamento da verdade. E, quer queiramos quer não, é no enfrentamento das vicissitudes da vida, que vamos ampliando a nossa consciência do mundo e vamos percebendo o nosso exíguo universo e a amplitude infinita de tudo o que nos rodeia .

O mito de Narciso conta que só o amor a si nas águas límpidas do lago pode custar o sofrimento que culmina com a própria morte. Enquanto crianças, criaturas da natureza, ignorantes de si, somos felizes e construímos com mágica e alegria a nossa existência. Com a evolução e o amadurecimento, na diferenciação concreta e definitiva de nós mesmos, vamos percebendo as nossas limitações, as incerteza da condição humana, da perda do vigor e do próprio desaparecimento e a profunda necessidade do outro como referencial para a nossa própria vida.

Eis o adolescente de hoje, o puro Narciso lançado ao mundo em tempo e lugar de muitas possibilidades, pleno de energia e força de vida, apaixonado por si e pelo mundo, pedindo para se exprimir no amor e na poesia (leia: guia da reconquista perfeita), mas sem os referencias humanos confiáveis e sem a sustentação suficiente da sociedade, de forma a imprimir sentido à sua realização como pessoa. Junto com o legado cultural maravilhoso da pós-modernidade, ele descobre as limitações impostas a si pela própria imaturidade e pelo mundo individualista, regido pelas leis do imperativo perverso do mercado capitalista.

Este mundo novo, que mal contém os adultos que se corrompem por seus espaços, prolonga a adolescência dos jovens, infantiliza as pessoas e os adolescentes vão permanecendo em compasso de espera, retardados, nas suas expressões de amor e de projetos de vida.

A prescrição é ‘ficar’, porque adolescente não pode amar, pois amar implica compromisso e o compromisso implica vínculo com a família e a sociedade. Os saudosistas dizem que não se vive mais ‘o amor’, romantismo de época pretéritas, porque, hoje, amor é doença afetiva, obsessão tratável por psiquiatras, que pode levar ao auto-extermínio e custar o sofrimento de uma eternidade. No momento atual, é importante que tudo seja descartável, que o prazer não tenha compromisso, que o tempo possa ser consumido e jogado fora…  ‘Transar sim’, ‘engravidar não’, porque a gravidez significa também compromisso e cuidado, que envolve a família e a sociedade.

A sociedade nega e recusa o próprio crescimento. A gravidez na adolescência emerge também como doença a ser tratada, mas, pensando bem, pode ser o grito da natureza na direção da sua realização que é recusado a ser ouvido,  a ser compreendido e acolhido.

Muitos anos de formação acadêmica têm que transcorrer para que os adolescentes e jovens se tornem adulto e para que o adulto perceba que sua criança cresceu, para que essa criança também possa crescer e ser feliz, vivendo, normalmente.

Em uma cultura sem leis, em que gangs executam pessoas, segundo os próprios ordenamentos, a natureza grita, através dos desastres ecológicos, da violência, da banalização da sexualidade, oferecendo ao jovem a condição da descoberta da grandeza da possibilidade de viver o amor de toda a sua vida no infinito tempo de “um só minuto”(eles chamam essa possibilidade de “ficar”).

Eis as vicissitudes do século XXI!